Foi Assim… – XXIII -

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A luta para organizar e construir o PDT-Partido Democrático Trabalhista, após o fim das esperanças de se criar um novo PTB, em que à experiência do passado trabalhista se juntaria aquilo que parcela da esquerda tinha adquirido antes, durante e pós-golpe de 1964, foi uma árdua tarefa. Não porque fosse complicado cumprir com os requisitos exigidos pela legislação eleitoral da época, mas, em virtude das imensas dificuldades surgidas pela antecipada luta ideológica interna e que era transportada para o seio do povo. O interessante é que, para quem olhasse de longe, com os olhos e os apressados chavões esquerdistas, a luta parecia ser uma luta por princípios políticos, em que de um lado havia um setor burguês ou aburguesado e doutro os agrupamentos mais consequentes com a realidade política que se vivia no mundo, na América Latina e no Mundo. Um velha luta, diriam alguns.
Na verdade, até que a luta era bem antiga, só que a diferença estava na falsidade desses enfoques, não porque não existissem aburguesados, burgueses e nem sinceros revolucionários, mas contrafações teóricas para justificar o assenhoreamento  das novas estruturas partidárias de poder. Um dos mais claros exemplos, daqueles em que até a realidade era negada como reacionária e inecxistente, era a nítida sabotagem ao que se propruzesse como política de massa, processos de politização e tentativa de garantir aos setores da base, tanto orgânicos, como informais do Partido, o direito de direta representatividade nos colegiados do PDT. Um exemplo foi a famosa Brizolandia , muitíssimo bem retratada pelo texto do jornalista Israel Tabak, do JB, que em 24 de junho de 2004, escreveu sobre a sua decadência:
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Brizolândia é uma mesa no canto da praça
Israel Tabak
Jorge Cecílio
A Hora do Adeus
Dois dias após a morte do líder trabalhista, Cinelândia nem de longe lembrava os anos de efervescência política.  Marly Koplin, professora aposentada, tem mesa cativa há mais de 10 anos na Cinelândia
A mesa circular fica em frente a uma das janelas da Câmara de Vereadores, na Cinelândia, no mesmo local onde foi erguida a barraca original da Brizolândia, em 1982. Sobre a mesa, uma bandeira do PDT e uma tarja preta. Protegida por uma barraca, Marly Koplin, 59 anos, brizolista roxa, bate ponto todos os dias, há mais de 10 anos, num canto da praça que foi um dos mais agitados centros de discussão política do Rio.
A mesa da professora aposentada Marly é tudo o que sobrou da Brizolândia. Dois dias depois da morte de Brizola, a Cinelândia esfuziante de outros tempos era um deserto. Só em uma rodinha isolada, no fim da tarde, admiradores se encontraram para reverenciar o líder. Poucos, como Marly, já acompanhavam o líder gaúcho antes do golpe de 64. Ali, naquela mesma praça, o ex-governador era a grande estrela de comícios que atraíam multidões.
Nos tempos em que a polarização política apaixonava os moradores da cidade, a Cinelândia fervilhava, nos cafés, sorveterias e no centro da praça, penúltimo ponto dos bondes que vinham da Zona Sul e faziam a volta no ponto final do antigo Tabuleiro da Baiana, terminal demolido no Largo da Carioca. Marly nem precisava pegar o bonde. Morava ali perto, na Rua Santa Luzia, e ainda adolescente acompanhava sua mãe aos comícios.
Qual a origem do fascínio exercido por Brizola na pequena classe média e no meio operário, de onde provinham os minguados antigos freqüentadores da Brizolândia que voltaram ontem ao antigo reduto? Quando se faz essa pergunta, há geralmente um momento de hesitação. É como se a admiração quase incondicional antecedesse alguma razão específica.
- Tudo nele me fascinava. Mas se tivesse que escolher a razão principal, falaria no seu amor pela causa da educação popular – responde a professora Marly.
O funcionário público José Luíz de Lima, 48 anos, cita a preocupação do líder trabalhista em proteger os mais humildes contra os excessos da polícia. O vendedor João Pinto, 54, diz que acompanhou os irmãos mais velhos, entusiasmados com Brizola desde os tempos da cadeia da legalidade, que ajudou a garantir a posse de Jango Goulart, em 1961. O faxineiro Sérgio Pereira da Silva, 38 anos, foi atraído pela firmeza da linguagem nacionalista que condenava a ”espoliação” do povo brasileiro.
Freqüentadores da Brizolândia, os três relembraram algumas tardes quentes quando discussões acabavam em brigas com grupos rivais, como o pessoal do MR-8, que apoiava o PMDB de Moreira Franco, sucessor de Brizola, após o primeiro mandato. Também lembraram outros ”excessos”, como quando Cesar Maia levou tomates e ovos podres em 1991, sob a acusação de ter ”collorido” e no dia em que um empresário foi agredido com um pontapé por um freqüentador contrário às privatizações.
O nascimento espontâneo da Brizolândia, ponto de encontro de simpatizantes anônimos, pouco antes da primeira vitória de Brizola, em 1982, representou também a ressurreição da Cinelândia como centro de efervescência, após os anos de treva da ditadura. Marly Koplin garante que não vai continuar ocupando seu espaço cativo, todo santo dia. A razão estava nos dizeres do adesivo grudado ao peito: Brizola vive.
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Era, pois, esse povo que dava força e fazia do PDt uma concreta alternativa política de poder no Estado do Rio de Janeiro e com possibilidades de avançar pelo país. O grande dilema estava naquilo que poderia ser visto como uma nítida manifestação das tradicionais estruturas políticas de antes do golpe e que tinham sobrevivido como uma proposta unipessoal de poder e capacidade de enriquecimento. O combate a essas práticas era bem difícil, pois, ou se esbarrava num arremedo de proposta nacional-esquerdistas, ora na execerbação do culto à personalidade de Brizola, que era o grande fulcro condutor do PDT.
No cidade do Rio de Janeiro, graças à memória popular, que lembrava a Cadeia da Legalidade de 1961 e a vitoriosa campanha para deputado federal de Leonel Brizola em 1962, quando obteve a maior votação até hoje recebida por um candidato a deputado federal na História da ex-capital da República, na época Estado da Guanabara, o trabalho era  quase fácil, embora no interior do Estado as coisas corressem com certa dificuldade. Uma dificuldade criada pelos velhos sobas políticos conservadores que  lutavam para manter suas estruturas políticas oligárquicas intactas e poderosas. Entretanto, a despeito da formidável estrutura clientelista montada desde o velho PSD e sob a esperta direção do Almirante Amaral Peixoto que parecia um vice-rei regional, ainda havia remanescentes do velho PTB de RobertoSilveira e antigos militantes de esquerda que viam o nome de Brizola e sua proposta como algo bem positivo. Assim, junto com políticos do MDB, como J.G. de Araújo Jorge, Lisâneas Maciel e Saturnino Braga, que traziam parte de suas bases eleitorais, o PDT do Rio de Janeiro foi a caminho da legalidade exigida àquela época.
O ingresso de um forte grupo de comunistas, sob a liderança de Prestes, que via no PDT a melhor proposta para aquele momento nacional, reforçou o verniz político do Partido, embora, por força de sequelas políticas clássicas dos partidos burgueses, a sua participação foi quase truncada pela fantasia de criar núcleos de poder partidário quase que a revelia do próprio PDT. Era a ilusão de “um partido dentro de outro”, uma prática que não foi bem aceita por parte de Luis Carlos Prestes, tanto que se manteve fiel ao PDT até o dia de sua morte.
Enfim, o panorama podia ser visto de dois modos: eleitoralmente, como sentíamos em nossas andaças pelo interior, a candidatura de Leonel Brizola era factível e capaz de nos dar a vitória; politicamente, para estruturar o Partido dentro dos prazos e limites estabelecidos pela legislação, várias foram as concessões a dúbios aliados. Algo que mais tarde mostrou-se extremament danoso ao PDT, mesmo que representasse a média do que estava a acontecer em todos os Estados. Ou seja, enquanto podíamos contar com um forte apopio de massa para candidaturas majoritárias, sofríamos certa descaracterização quando a questão se colocava em termos de candidaturas proporcionais.
Graças ao apoio e a amizade de um antigo lider camponês da Paraíba, José Isidro de Souza, que tinha bons contatos com alguns setores do interior do Estado, fizemos do município de Cachoeiras do Macacu a base de operação para avançar para o interior e até mesmo contribuir para o desenvolvimento político do próprio PDT.  A base veio de um velho petebista, o engenheiro Ubirajara Muniz, que ansiava ser prefeito de sua cidade e tinha uma visão mais a esquerda que a maioria dos egressos do PTB. Com a ajuda de Ubirajara Muniz foi possível criar um pequeno jornal, “O Trabalhador”, onde pretendíamos divulgar as teses e idéias dos mais importantes líderes do PDT, além de darmos um pouco de uam visão política mais abrangente em termos nacionais e internacionais. Muitíssimo importante, também, foi a inestimável colaboração profissional do artista gráfico David Gomes Araújo, que deu forma ao que era apenas uma idéia rabiscada, além de ser um hábil articulador e político.

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5 Comentários

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5 respostas para Foi Assim… – XXIII -

  1. Antonio Carlos

    Para quem, como eu, está há muito filiado ao PDT, o seu relato tem sido bem esclarecedor sobre alguns pontos que não conseguia entender. Foi ótimo saber que o PDT já teve imprensae muito boa.

  2. Carla

    Parabéns pelo seu excelente relato, que vale como um curso inteiro de história do Brasil e do mundo dos últimos sessenta anos.
    Sinceramente,penso que você devia procurar publicar o “Foi Assim…”.
    Também me vem a mente que o texto poderia servir de roteiro para um filme.
    Carla Novais

  3. Sou de Belém e me auto-entiluvava amigo do ciberespaço do Pedro, ele era frequentador de meu blog com seus extraordinarios comentarios, além da tristeza muitas duvidas perseguem meus leitores, querem saber o que houve com o Pedro.
    Eu também sou Pro-reitor da Universidade federal do Para e gostaria de conversar com os herdeiros a possibilidade de publicarmos em livro as memorias que ele publicava na internet.
    Que puder me dar estas informaçoes entre em contato
    flavionassar@gmail.com

  4. Bruno

    Soube, com imenso pesar, que o Jornalista Pedro Ayres, autor dessas memórias, que eu lia sofregamente há alguns meses, faleceu.
    Li essa notícia em:
    http://www.tijolaco.com/escreve-de-la-amigo-ayres/
    Espero realmente que essas memórias, assim bruscamente interrompidas, sejam publicadas e divulgadas, como assinala Flávio Nassar.
    Até onde foram, informaram-nos sobre fatos históricos e políticos muitíssimo importantes da história recente do Brasil e da América Latina. E esclareceram muitos aspectos, com as análises brilhantes do autor.
    Aos amigos e familiares do Jornalista Pedro Ayres apresento os meus sinceros sentimentos de pesar. Gostaria imensamente de tê-lo conhecido pessoalmente.
    Fica-me a certeza que perdemos um grande brasileiro, que soube lutar com dignidade e firmeza pelos seus justos ideais.

  5. Fiquei triste com a remoção do blogue Crónicas e Críticas da América Latina. Para mim, é aí que ainda vive o Pedro. Quando penso nele surge-me, recorrentemente, o seu espaço de luta e de afirmação.
    Um abraço, Pedro
    Agry

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